EP 10 / Português
Transcrição integral
Quanta informação cabe em você? Em quase toda célula do seu corpo tem um texto escrito com só quatro letras. Uns três bilhões delas. Passado pra computador, cabe em menos de um gigabyte. E esse texto faz uma coisa que nenhum livro faz: ele se copia sozinho.
A pergunta deste episódio é: o que é, afinal, uma coisa que se copia sozinha? Mil novecentos e cinquenta e dois. Em Londres, no laboratório de Rosalind Franklin, sai uma fotografia de raio-X de uma fibra de DNA: a Foto cinquenta e um. Um X borrado que, pra quem sabe ler, grita uma palavra: hélice. Mil novecentos e cinquenta e três.
Em Cambridge, James Watson e Francis Crick, usando os dados de Franklin e de outros, montam o modelo. Duas fitas enroladas, com as letras encaixando aos pares. A com T. C com G. Sempre.
Nunca de outro jeito. Rosalind Franklin morreu em mil novecentos e cinquenta e oito, aos trinta e sete anos. O Nobel do DNA saiu quatro anos depois. e o Nobel não vai pra quem já morreu. E, no fim do artigo, eles escrevem uma frase de uma modéstia quase engraçada: não escapou à nossa atenção que esse pareamento sugere um jeito de copiar o material genético.
Abre o zíper ao meio, e cada metade monta a que falta. Uma escada vira duas. A vida é um texto que sabe fazer cópia de si mesmo. Mas o que esse texto diz? Mil novecentos e sessenta e um.
Marshall Nirenberg e Heinrich Matthaei fabricam um rna, o primo do DNA, em que o T vira U. Uma letra só, repetida. U, U, U, U. Colocam num caldo de células. e sai uma proteína feita de um único tijolo.
Pronto: a primeira palavra decifrada. O código usa palavras de três letras: sessenta e quatro palavras possíveis, pra uns vinte tijolos. A vida escreve com palavras de três letras. E se isso não vale só pra gene? Mil novecentos e setenta e seis.
O biólogo Richard Dawkins, num livro chamado O Gene Egoísta, inventa uma palavra: meme. Do grego, "coisa imitada". Uma melodia, um bordão, uma moda, um jeito de fazer pote. Ideias que pulam de cabeça em cabeça, se copiam e competem, como genes. Lembra, lá no primeiro vídeo?
Meme é termo de biólogo. Tá aí o biólogo. Uma ideia também pode ser. contagiosa. Só que nenhuma cópia é perfeita.
De vez em quando, uma letra sai trocada. É a mutação. Quase sempre, não faz diferença. Às vezes, estraga. E, muito de vez em quando.
ajuda. É daí que vem a variedade da vida. Lembra das tabelas de conta? Lá, erro de cópia era desastre. Na vida, é matéria-prima.
Dois mil e três. Termina o Projeto Genoma Humano: treze anos, vinte centros em seis países, e o livro inteiro soletrado, letra por letra. Hoje, ler um genoma inteiro leva dias. Não anos. Repara no que a vida sabia.
Antes de qualquer engenheiro, ela resolveu as três coisas que fazem a informação durar. Escrever num código. Copiar com cuidado. E guardar duas fitas, uma espelho da outra, pra corrigir o erro. Redundância de novo.
O tambor do Congo ia gostar. Então, o que é uma coisa que se copia sozinha? Uma receita que carrega as instruções pra fazer a própria cópia. Gene. Meme.
A vida é informação. que aprendeu a se copiar. Só que, quando tudo se copia. sobra demais. Notícia demais.
Texto demais. Dado demais. E aí, no meio dessa enxurrada. como é que alguma coisa volta a fazer sentido? Quem conta essa história é a XMACNA.
A gente vive a página mais nova dela: Funcionários Digitais, pondo essa inteligência pra trabalhar. sob o seu controle. Segue a XMACNA pro próximo episódio. A Informação. Episódio dez: O código da vida.
Inspirado em The Information, de James Gleick. Leia o livro.